Saneamento, a verdadeira solução
Duilo Victor
O algoz que tentou estragar o verão no Rio e deixou doentes, até sexta-feira, 23.555 cariocas só este ano, divide casa com a vítima. Cerca de 90% dos focos do mosquito Aedes aegypti estão próximos do ambiente doméstico, portanto, ao nosso alcance. No Rio, o calor escaldante e as chuvas fazem a larva criar asas em apenas uma semana, três dias antes do que em outras cidades. Especialistas no assunto descrevem mais motivos para o Aedes gostar do Rio: crescimento desordenado e acúmulo de lixo nas encostas. Tais problemas condenam os moradores a serem fadados a conviver com o mosquito. Diante de nova epidemia, restam as ações de emergência.
- O Aedes não tem inimigo natural, pois vive no ambiente doméstico, o que existe é o amigo natural, que é o homem - explica o o especialista no estudo de insetos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Anthony Érico Guimarães. - Medidas paliativas, como colocar areia nos pratinhos de plantas não adiantam mais. Os ovos do mosquito resistem 12 meses e, até lá, a areia pode ter saído com a chuva.
O radicalismo contra o mosquito não passa por usar repelente ou deixar de vestir bermuda, segundo Guimarães. Em vez de areia no pratinho, melhor eliminar o pratinho, recomenda o especialista.
- Mais do que informar, as pessoas precisam ser educadas, desde a escola, tornar o combate às larvas algo tão comum como escovar os dentes. Não basta, por exemplo tampar a caixa d'água com telha. O reservatório tem de ser vedado com tampa apropriada.
A tática de evitar o uso da bermuda não é eficaz, pois o mosquito é agressivo e ataca o rosto se estiver faminto. Fumacês são pouco eficazes pois o veneno é lançado da rua.
Casa ruim, focos em série
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcelo Simões, faz coro quanto as ações de educação no combate aos focos, mas pondera: de nada adianta se a vizinhança não colaborar. Segundo o também consultor do Ministério da Saúde, casebres sem abastecimento d'água - o que obriga armazenar em tonéis quase sempre destampados - e sem coleta de lixo aumentam o problema:
- O advento das garrafas pet fez os locais de coleta virarem um manancial de focos do mosquito.
Apesar de ter um PIB maior que do Chile, os gargalos de infra-estrutura nas moradias ainda assolam o Rio. Estudo da pesquisadora Márcia Frota Sigaud, divulgado desde o ano passado pelo Instituto Pereira Passos, traça um mapa das moradias inadequadas do Rio, que, não por coincidência, tem entre os bairros campeões alguns líderes de incidência de dengue este ano, como Jacarepaguá, Rocinha, Pavuna e Paquetá. As áreas de favelas ou de ocupação mais recente da cidade apresentaram os maiores percentuais: Guaratiba (40%), Rocinha (36%), Barra da Tijuca (21%), Santa Cruz (20%), Paquetá (18%), Jacarepaguá (15%), Complexo do Alemão (13%), Campo Grande (11%), Pavuna (10%) e Rio Comprido (9%).
Fonte: http://jbonline.terra.com.br/editorias/rio/papel/2008/03/23/rio20080323000.html